O Aeroporto Internacional de São Paulo – Governador André Franco Montoro, popularmente conhecido
como Aeroporto de Guarulhos (GRU Airport), é o maior e mais movimentado da América Latina. Recebe
anualmente dezenas de milhões de passageiros, conectando o Brasil a centenas de destinos no mundo
inteiro. Mas por trás da imponência dos números, há um retrato de precariedade, má gestão e
desconforto crônico para quem utiliza o terminal — sejam passageiros nacionais ou estrangeiros. Apesar
de sua importância estratégica e econômica, Guarulhos é um exemplo de como a grandiosidade não
significa qualidade.
O GRU Airport conta com três terminais de passageiros (T1, T2 e T3), mal interligados, distantes entre
si e sem nenhum sistema eficiente de transporte interno. Passageiros que, por algum motivo, precisam
se deslocar entre os terminais acabam caminhando longas distâncias sem esteiras rolantes, sem
sinalização clara, e muitas vezes sem assistência. O Terminal 3, voltado para voos internacionais, é o
mais moderno, mas completamente isolado do Terminal 1, que serve voos domésticos e é o mais
precário. Não há trens, ônibus circulares dedicados nem sequer carrinhos elétricos, como é comum
em aeroportos internacionais de grande porte.
Em diversas áreas comuns do aeroporto, como banheiros, praças de alimentação e corredores, a higiene é
visivelmente negligenciada. Relatos de lixeiras transbordando, mau cheiro, sanitários sem papel ou
sabão e chão molhado não são raros. O contraste entre o design moderno de certas alas e a realidade suja
e desgastada de outras cria uma sensação de desorganização estrutural — como se cada parte do
aeroporto estivesse sob administrações diferentes, sem padronização de qualidade. Comidas e bebidas nos
terminais têm valores que beiram o escárnio. Um café simples pode custar até R$ 12,00, enquanto um
lanche básico ultrapassa facilmente os R$ 40,00. Isso torna o aeroporto um dos mais caros do mundo
para o consumo básico, afetando tanto turistas quanto passageiros de voos domésticos. Falta de
concorrência real e contratos comerciais mal equilibrados resultam em preços abusivos e pouca
diversidade de opções — em especial nos horários de madrugada ou nas áreas de embarque.
Outro ponto de crítica recorrente é o tempo de espera para retirada de bagagens, especialmente nos
voos internacionais. Passageiros aguardam mais de 40 minutos, em média, para que as malas comecem a
ser disponibilizadas nas esteiras, o que compromete conexões, translados e gera revolta. Não raro, os
sistemas de comunicação falham, e passageiros permanecem sem informação clara ou funcionários
disponíveis para esclarecer atrasos ou orientar sobre o processo. Os pontos de raio-X e detectores de
metais são insuficientes para o volume de passageiros que passa por Guarulhos. O resultado são filas
longas, lentas e estressantes, sobretudo em horários de pico, como início da manhã e final da tarde. Há
poucos canais dedicados a passageiros prioritários (idosos, com crianças, ou pessoas com deficiência),
o que agrava ainda mais a sensação de descaso.
Outro gargalo do aeroporto é sua distância do centro da capital paulista: cerca de 25 a 30 km, que
podem se transformar em mais de duas horas durante os frequentes engarrafamentos da Rodovia
Presidente Dutra e da Marginal Tietê. Embora exista um trem da CPTM que conecta o aeroporto à rede
ferroviária urbana (Linha 13–Jade), a ligação é lenta e exige baldeações, tornando-se pouco prática. Os
táxis e aplicativos, por sua vez, cobram valores altos, e o sistema de ônibus executivo é limitado.
Guarulhos deveria ser o cartão de visitas do Brasil para o mundo. Contudo, ao desembarcar, o que muitos
turistas e brasileiros encontram é um ambiente confuso, cansativo, caro e mal gerido. Enquanto
aeroportos como Doha, Dubai, Amsterdam e até Buenos Aires evoluem para oferecer conforto,
mobilidade e tecnologia aos passageiros, Guarulhos parece estacionado no tempo.
Em vez de ser um símbolo de orgulho nacional, o GRU Airport revela uma série de falhas estruturais,
operacionais e administrativas. A responsabilidade recai tanto sobre a concessionária GRU Airport,
que administra o local desde 2012, quanto sobre as autoridades públicas, que deveriam fiscalizar e
exigir padrões mínimos de qualidade.Um aeroporto desse porte precisa ser mais do que um grande
terminal de concreto: deve oferecer eficiência, conforto, higiene, preços justos e respeito ao
passageiro.A promessa de um Brasil moderno e acolhedor começa — ou termina — no aeroporto. E,
infelizmente, em Guarulhos, essa promessa está longe de ser cumprida.